segunda-feira, 4 de março de 2013

Dicas de Filmes: Madre Joana dos Anjos



Vamos falar hoje de um filme daqueles que eu chamo de "germinal", merecem esse nome porque iniciam toda uma nova classe ou sub-classe de filmes. No gênero Terror, essa pequena joia polonesa de 1961, acreditem, é a responsável pelo nascimento do sub-gênero "filmes de exorcismo". Se me permitem vou falar um pouco de história antes de embarcarmos na análise do filme em si. Lembrando que eu sou o rei dos spoillers.

Historicamente "Madre Joana dos Anjos" é baseado no Caso de "As Possessões de Loudun" ocorridos na França em 1634. Na região de Loudun, havia um convento de freiras ursulinas que estavam sendo assediadas por demônios e apresentavam um quadro de convulsões e pronunciamento de blasfêmias contra Deus e a Igreja, mais ou menos como adolescentes ateus do século XXI. Coube ao padre Jean-Joseph Saurin exorcizar as freiras. Como resultado, o padre enlouqueceu, feriu-se, tentou se matar, disse que ia ser cabo eleitoral da Dilma entre outras sandices. No final desse período de desespero, Jean-Joseph contou que exorcizou os demônios convidando-os em seu corpo. Afirmou o Padre que tinha consciência do que estava acontecendo mas não conseguia de forma alguma se controlar. Era como se duas almas dividissem o mesmo corpo.


A culpa desse crime terrível, descobriu-se, tinha sua origem no sacerdote Urbain Grandier, que havia fixado um pacto com o diabo. Por conta de sua impenitência Grandier foi devidamente enviado ao inferno para ficar fazendo "upa-lá-lá" no colo do capeta, como era sua vontade.

Introduzidos no cerne da trama, vamos falar agora da base literária. "Madre Joana dos Anjos" é a adaptação de um conto homônimo, escrito pelo poeta e ensaísta polonês Jaroslaw Iwaszkiewicz, e publicado pela primeira vez no livro "Novo Amor e Outras Histórias" de 1946. Curioso que a mesma história serviu de inspiração para "Os Demônios de Loudun" de Aldous Huxley. Excelente escritor, mas péssimo historiador, orientalista e tendencioso. Bom, a essência da coisa não é prejudicada por isso. Esse livro de Huxley era uma febre dos anos 60 época em que a moda era ler Huxley e Hesse (diferente dos dias de hoje em que se lê Dan Brown e Stephenie Meyer), e deu origem a outro filme muito mais barra pesada - dirigido pelo piradão Ken Russell (um diretor com obsessão fálica) - chamado "Os Demônios" raríssimo de encontrar aqui no Bananistão até os dias de hoje e absolutamente dispensável também.

Por fim, temos que dizer que o Diretor Jerzy Kawalerowicz fez aqui um excelente trabalho. Nada no filme é dispensável, seus enquadramento e o domínio da narrativa mostram um autor que sabia muito bem o que estava fazendo. O terror que se sente vendo esse filme é quase palpável, é um desespero crescente. Toca a alma ver a simpática freirinha, ao confrontar seu exorcista, declarando-se como possuída por 8 demônios diferentes e a sua transformação - sem precisar de maquiagem ou CG, apenas através do talento da atriz Lucyna Winnicka - que perturba nossos sentidos.O filme em si, é um questionamento sobre a mediocridade dos filhos de Deus, nossa miserabilidade, por isso é, um dos poucos filmes de "Real Terror" que conheço. Os olhos do Padre exorcista, interpretado magistralmente por Mieczyslaw Voit, grudam na mente e a loucura parece até algo que pode ser tocado.

O filme foi agraciado com o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes. "Madre Joana dos Anjos" é um filme obrigatório para todos os cinéfilos.

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